Nomadismo digital e o mental disso

Viajar, trabalhar, curtir, ganhar dinheiro, conhecer gente nova, outras culturas, “ser livre”, viver de maneira compartilhada com um mundo maior, ter “qualidade de vida”. Essa é a ideia que se tem do que é ser um nômade digital.

Já li em algum lugar que a moda do nomadismo digital está em alta entre os 25 e os 45 anos. Pessoas adultas, em idade produtiva, solteir@s, casad@s, com/sem filhos/pets.

A foto de cada lugar lindo que se passa, as histórias de cada cultura. Uma delícia! Até a segunda página porque tem a parte dos custos de mudança, adaptação, perdas, lutos, rearranjo no costumes e isso pode ser interessante por um lado e difícil por outro.

Pra falar a verdade, eu mesma me considero uma nômade hoje em dia, sério! Tive que assumir esse lado meu depois de 13 mudanças de casa em 11 anos, entre bairros, cidades, estados e países diferentes, trabalhando de casa e/ou em um espaço físico e/ou através de um computador, e/ou com pessoas de diferentes localidades. Mesmo quando estava grávida, eu morava e trabalhava em 2 cidades distantes 550 km uma da outra. Então olha, a teoria é linda, mas um resumo do que é viver o nomadismo na vida real é que ele não é mil maravilhas não!

Me encanto com a ideia de mudar de casa, de cidades, de tentar diferentes territórios e ir ver o que dá, como que dá e até que ponto eu me encaixo e até que ponto não me encaixo nas diferentes comunidades onde vivi. Já percebi que esse estilo de vida é mesmo interessante pra mim, me conecta o local e o global de uma maneira mais evidente, me faz repetidas vezes trabalhar minhas habilidades de socialização e de aguentar frustração e solidão. Olhar como estrangeira e me ver como parte de uma comunidade.

Isso tudo pra mim me é interessante porque fica claro pra mim que a gente vive mesmo num território que se conecta com outros territórios e depende de outras conexões que não são só locais, mas regionais, nacionais, continentais, globais. Principalmente emocionais e históricas. E é por meio das narrativas, das histórias de vida contadas e recontadas que construo uma linha/várias linhas de identidade, de sentidos e descrições de mim mesma sobre mim. É nesse movimento que eu também consigo ver a passagem do tempo. O meu tempo de adaptação, o tempo do local/comunidade onde me insiro, o tempo de conhecer pessoas, as relações que sobrevivem ou não ao tempo.

Mas e o mental disso?

Não falo de Jet lag, nem de choque entre culturas. Tem isso também. Mas como lidar com as nossas raízes? Como tê-las fortes e saudáveis, mudando de terreno sempre? Eu tenho pensado que sou como uma planta de vaso. Nasci muda, estava plantada lá em Araçatuba, depois fui pra São Paulo estudar, me enfiaram num vaso. De la me levei/me levaram pra Ribeirão Preto. Um solo fértil que abriu minha cabeça. Precisei me reenvasar umas 3 vezes pra me caber em mim. Depois eu e meu vaso fomos pra Itália, de lá pra São Paulo, de lá me fiz muda e me reparti em 2 vasos, metade foi pra Cachoeiro do Itapemirim, metade voltou ora Araçatuba. Me encontrava comigo novamente em São Paulo. E lá me replantei novamente, em um vaso maior e mais bonito, que deu frutos. Me reenvasei novamente, fiquei maior. Mudei de local, onde tinha sol e calor, mas não muito, em Sorocaba e nesse momento que eu reescrevo esse texto, estou de partida para o Rio de Janeiro, com mais frutas no pé, na barriga e no coração.

Amigos, familiares, planos, metas, prazos, planejamentos, móveis, contratos, combinados, costumes, hábitos, rotinas? Tudo isso é confuso e difícil de lidar! Se bem que venho ganhando mais habilidade em fazer as malas, me desprender do que é material e levar comigo o que mais me importa é sustenta: família, amigos, trabalho, prazer. Não foi em paz que eu cheguei até aqui, nem sem vazio. Essa paz estática, a motivação animada eu já descobri que sempre perco na mala e deixo em algum lugar. No caminho reponho isso com paz ativa (entender que é processo em processo) e uma certa negociação entre quereres, deveres, possibilidades e energia disponível. O vazio, aprendi que ele faz parte de mim e não algo que me falta ou foi roubado. É aque espaço que permite crescimento e aprendizado. Se tiver cheio tudo, não há espaço de rearranjo.

Quero evidenciar que no nomadismo digital carregamos quem somos na mala, e junto conosco temos nossas histórias, expectativas e crenças. Acredito que esse são elementos necessários támbém na vida dos “sedentários” (posso chamar assim aqueles que ficam na mesma cidade ou região ou bairro uma vida inteira)? Porque trocar de vida também várias vezes na vida. Talvez não tão drasticamente como pessoas co pmo eu, mas precisam readaptar-se as mudanças de ritmo de vida, de situação, dia te de acontecimentos (casamentos, filhos, perdas, trabqlhos). A vida sólida, aquela que não muda em nada a vida inteira, é um delírio infantil!

No meu trabalho, grande parte do que faço é acompanhar, promover e lidar com mudanças de vida das pessoas vida. Seja pelo desenvolvimento de transtornos ou movimento dos ciclos de vida, grande parte do meu trabalho é trabalhar recontando de histórias, criatividade e flexibilidade. E as pessoas fazem isso, fazemos isso,com mais frequência diante do sofrimento, mas de verdade, tenho descoberto que não precisa ser assim só não. Pode ser um movimento ativo que vê, inclusive o sofrimento, como parte do que é vivo.

E o digital disso tudo? Ele entra na minha conexão com você, que me lê e que pode nem morar no mesmo lugar que eu.

Ele também entra na mala e vai pelo wi-fi com a gente, viu! É ele que conecta e desconecta a gente (nômades e sedentários) com o nosso mundo que é e não é virtual, real, imaginário e físico. E é o “mental” a linha que situa, conecta e articula esses mundos todos com outros mundos. Um mental que é incerto, imaterial e concreto também.

Nas minhas andanças e pesquisas, percebi que os territórios mudam, o modo como nos descrevemos muda e as narrativas, as conversas também mudam. Mas o mesmo pode acontecer se permanecemos no mesmo dito território. Troca-se a língua, o sotaque, algumas expressões idiomáticas, trocam-se as piadas, as comidas. Mas nosso corpo, nossa história, nossas conexões, nossas visões de mundo mantém um fio condutor que nos permite permanecer no tempo.

E as raízes? Temos raízes, mas elas podem não se formar em torno de um ramo central, mas se desenvolve em rizoma. Rizoma que cria conexões entre os pontos de parada e o caminho, que cria laços e os desfaz. Marca inícios e finais que podem não ser finais eternos, mais finais daquele momento de vida.

O mental do nomadismo que se conecta com o mundo de forma real/digital é talvez perceber que a forma de vida é mutante e que adaptar-se, abrir-se, fechar-se, lutar, viver lutos faz parte de viver. Isso pode ser em nome de sofrimento e também pode gerar sofrimento. Não precisa ser assim, mas pode ser que isso aconteça. E nesses momentos e por essa perspectiva, uma ajudinha pra entender esse processo pode cair bem.

Por Fernanda de Sousa Vieira

Mestre e Doutora em Psicologia pela FFCLRP- USP Psicóloga Clínica - CRP 06/101877 Especialização em Sexualidade Humana pelo PROSEX-FMUSP, Formação em Terapia Cognitivo-Comportamental pelo CETCC, Personal and Self Coach pelo IBC Formação em Esquizoanálise pela Escola Nômade de Filosofia www.bravepsico.com Siga no Facebook e Instagram @bebravepsico e no LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/fernanda-vieira-20a910b1

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