Que saco dizer não!

Que saco dizer não!

É mesmo um saco. Mas é um organizador eficiente da cabeça, sabia? Falar não permite evidenciar limiares.

Limiares são separadores dos corpos. O “até onde” você vai e que se encontra com o outro. Pensa na pele. Tem furinhos na pele, tem espaços penetrantes, mesmo entre os átomos que compõem o tecido da pele há espaços relativamente enormes. No entanto, há separações entre o dentro e o fora do corpo. Algo impede que outro algo entre e se misture. Há diferenciações.

Dizer “não” vai nessa linha. Permitir não entrar, não penetrar, não misturar. Alguns jeitos de criar crianças trocam “nãos” por proibições, por negações, por alucinações, desvios de atenção. Mas não anunciam limiares, denunciam limites, restrições.

A consequência é criar nas crianças, e mais pra frente em adultos ou mais amplamente em relações, políticas e modos de viver em sociedade o não reconhecimento de limiares. Estes se perdem entre visões dicotômicas e unidimensionais da experiencia real.

E pra dar conta disso, nos entregamos a moralismos, a visão de que as regras, o corpo, as pessoas e a vida como um todo são assim. Se por um lado acalma a ansiedade diante do não saber, por outro abre a porta para abusos, negligências e negações.

É um saco dizer não. É um saco se ver confrontado com a diferenciação. Mas é necessário porque assim, a regra, o corpo, as pessoas e a vida como um todo podem servir como bússolas para orientar para onde desejos vão. A ideia é descrever e estabelecer mais referências que muros, de maneira a ajudar a ampliar o senso de si mesmo. Essa mudança de atitude e de olhar para o não pode ajudar a compreender mais do que saber das coisas. E isso, em certo sentido, organiza e orienta mais que o simples e sonoro não moral dos porquês.

Os grandes organizadores não são os “porquês”, mas os “o quês” e os “comos”. O que é, o que são, como é, como são.

Na hora de dizer não, de reconhecer o limiar, de dar o tal “limite” difícil de ser dado, respira fundo, reconhece o ar que tava fora e que entrou. Isso é reconhecer e afirmar o não. É difícil, talvez poucas vezes será possível experimentar de maneira completa a percepção dos seus limiares, mas essa experiência é transformadora. Ela dá lugar ao respeito à si mesmo, ao autocuidado, ao respeito ao outro, às novas perspectivas e possibilidades de ação.

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