As habilidades sociais e sintomas de estresse durante a transição escolar

No período entre os dez e treze anos aproximadamente, a criança passa por mudanças físicas e cognitivas substanciais. A entrada na puberdade, associada à emergência do pensamento abstrato, frequentemente coincide com mudanças nos relacionamentos interpessoais, envolvendo a família e o grupo de pares. Em vista disso, em diversos países as crianças experimentam uma importante mudança contextual, que no Brasil ocorre entre o 5º e o 6º ano, passagem do Ensino Fundamental I para o Ensino Fundamental II. O tema da transição escolar no Ensino Fundamental interessa a pesquisadores do desenvolvimento, que buscam identificar efeitos dessa experiência no ajustamento escolar, intrapessoal, interpessoal e comportamental do aluno.

Resultados conflitantes apontam ora para efeito negativo, ora para ausência de efeito ou efeito positivo.  Estudos sugerem que após a transição pode haver elevação nos níveis de estresse relatados pelos alunos, no entanto, pode-se supor que crianças com mais recursos de enfrentamento seriam menos vulneráveis ao estresse da transição. Dado que habilidades sociais têm sido associadas a resultados de desenvolvimento, o objetivo deste trabalho é investigar, em crianças com diferentes níveis de habilidades sociais, os sintomas de estresse antes e depois da transição. Duas hipóteses foram testadas, por meio de um estudo prospectivo de comparação de grupos: (a) sintomas de estresse aumentam após a transição; (b) crianças com mais habilidades sociais apresentam menos sintomas de estresse.

A pesquisa ocorreu em uma cidade do interior do estado de São Paulo, Brasil. Dentre as 15 escolas municipais que ofereciam o Ensino Fundamental em 2014, ano da primeira coleta de dados, estavam matriculados no 5º ano 1614 alunos. Foram sorteados 823, dos quais 415 participaram mediante consentimento dos pais e assentimento próprio. No ano seguinte, rastreado o percurso dos participantes na rede de ensino do município, foram localizadas 379 crianças matriculadas em escolas públicas no 6º ano. Essas participaram da segunda coleta de dados, compondo a amostra do presente estudo. Os instrumentos utilizados foram a Escala de Estresse Infantil e o Sistema de Avaliação de Habilidades Sociais. Ambos foram ajustados à amostra da pesquisa por meio de análise fatorial confirmatória. Com base em escores individuais médios de habilidades sociais (HS) obtidos no 5º ano, foram criados três grupos: HS1 (0,00 a 1,33; n = 118), HS2 (1,34 a 1,66; n = 162) e HS3 (1,67 a 2,00; n = 99).  Para testar as hipóteses do trabalho utilizou-se a ANOVA de medidas repetidas a um fator.

Por meio dos escores, observou-se aumento dos sintomas de estresse do 5º para o 6º ano e variações significativas entre os grupos nas reações psicológicas com componente depressivo, em ambos os anos. Quanto maior os escores no inventário de habilidades sociais menores os níveis de sintomas de estresse. Os resultados confirmaram as hipóteses iniciais, ou seja, os sintomas de estresse aumentaram após a transição, mas as crianças com escores mais altos no inventário de habilidades sociais apresentaram menos sintomas de estresse. Entretanto, apesar de crianças com escores mais altos no inventário de habilidades sociais serem menos suscetíveis aos efeitos da transição, elas também tiveram seus níveis de estresse aumentado. Recomenda-se realização de estudos futuros levando-se em conta o contexto familiar e escolar.

Esta investigação foi financiada por bolsa da CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior e por auxílio e bolsa do CNPq – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Entidades do Governo Brasileiro voltadas para a formação de recursos humanos. http://www.capes.gov.br/ e http://cnpq.br/