Consumo de drogas entre pessoas em sofrimento psíquico: sentidos, significados e percursos

O diagnóstico duplo, ou comorbidade, é considerado prevalente tanto pela literatura do discurso médico-psiquiátrico, como na realidade clínica de serviços de saúde mental e de drogas. Considera-se que o campo da saúde está imerso em sistemas de crenças, influenciadas por aspectos culturais e sociais, inclusive sobre o que se considera sofrimento psíquico como sinônimo de diagnóstico psiquiátrico, que inserido em contexto mais amplo, se conectaria a sofrimentos compartilhados socialmente.

O consumo de drogas estaria imerso nesse mesmo contexto histórico e social compartilhado. Este trabalho se caracterizou como pesquisa qualitativa, cuja abordagem conversou com autores que consideram a pesquisa qualitativa como um exercício de sensibilidade, cujo foco na experiência em primeira pessoa. O objetivo geral foi conhecer sentidos e significados do consumo de drogas a partir de narrativas de história de vida de pessoas descritas com duplo diagnóstico. O objetivos específicos foram conhecer descrições sobre a experiência de sofrimento psíquico ao longo da vida; conhecer descrições sobre a experiência de consumo de drogas ao longo da vida; e conhecer descrições sobre experiências em que o consumo de drogas esteja associado a sofrimentos psíquicos.

Estudo exploratório, foi realizado em um CAPS II e um CAPS AD, da rede de atenção psicossocial, de um município do interior paulista. Participaram dezoito adultos, homens e mulheres, selecionados de maneira a diversificar possibilidades de quadros clínicos e consumo de drogas, em padrão considerado problemático. A coleta de dados foi feita por meio de entrevista de história de vida temática e anotações em caderno de campo. A análise foi feita a partir do material emergente de trabalho de campo, da literatura sobre diagnóstico duplo e sobre sofrimento social. As entrevistas foram consideradas narrativas, sendo selecionadas dez para sua apresentação pormenorizada, cujos critérios de seleção foram exequibilidade e diversificação dos quadros clínicos, sendo distribuídos quanto ao gênero e serviços onde eram atendidos.

Os resultados foram apresentados juntamente com a discussão, foi descrito o processo de construção do campo e do tema estudado e depois, foram descritas as narrativas. As narrativas dos participantes, na sua maioria homens e vindos de classes trabalhadoras urbanas, foram circunscritas pelo universo cultural e social onde se inseriam, mas também pelas possibilidades de escuta de demandas dos serviços da rede estudada. Esta se conformou em serviços que os descreviam de maneira excludente entre “usuários de drogas” e “doentes mentais”, estando comprometidas com perfis construídos nas diversas relações sociais e institucionais estabelecidas, considerando-se contextos e discursos mais amplos. Os sentidos e significados do consumo de drogas para os participantes foram construídos ao longo da vida, junto aos diversos eventos e situações vividos nas diversas relações sociais e culturais, em que o sofrimento psíquico, por vezes, fazia presente. O consumo de drogas, compreendido como dispositivo, permitia agir diante das situações de sofrimentos psíquicos e sociais, vividos singularmente, mas compartilhados socialmente. Considera-se importante refletir sobre as experiências vividas por pessoas em sofrimento psíquico e que fazem uso de drogas, considerando-os inseridos em um contexto mais amplo de relações sociais e institucionais, em que sofrimentos sociais estão presentes

VIEIRA, Fernanda de Sousa. Consumo de drogas entre pessoas em sofrimento psíquico: sentidos, significados e percursos,{Tese de doutorado} Ribeirão Preto: FFCLRP-USP, 2016.

O presente trabalho foi realizado com o apoio da CAPES, entidade do Governo Brasileiro voltada para a formação de recursos humanos bem como pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Foi parte das publicações produzidas pelo Laboratório de Ensino e Pesquisa em Psicopatologia, Drogas e Sociedade (LePsis) do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo e ao Dipartimento di Filosofia, Scienze Sociali, Umane e dela Formazione, da Università di Perugia, Umbria, Itália, instituições que promoveram o desenvolvimento deste trabalho.

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