Habilidades sociais na transição entre o primeiro e o segundo ciclo do Ensino Fundamental

No sistema educacional brasileiro, os alunos fazem uma transição de ciclo, entre o Ensino Fundamental I e o Ensino Fundamental II, quando passam do 5º para o 6º ano. A estrutura de sala de aula com um único professor é então substituída por um sistema com diferentes professores para diferentes disciplinas. Além disso, a transição pode implicar em mudança de escola, afetando a configuração do grupo de pares.

Pesquisas sugerem que algumas crianças podem encontrar dificuldade nos novos relacionamentos com professores e colegas, realçando a relevância das habilidades sociais (HS) nesse cenário. Este estudo prospectivo com duas coletas de dados, no 5º e no 6º ano, foi realizado com o objetivo de comparar as HS auto avaliadas pelos alunos antes e depois da transição. Devido à natureza do desafio, esperava-se encontrar diminuição nas HS após a transição. Esperava-se também uma redução menos pronunciada nas meninas, apontadas na literatura como socialmente mais habilidosas, dado que um repertório mais desenvolvido de HS poderia ser um facilitador no manejo das demandas interpessoais.

A amostra foi formada por sorteio de turmas nas 15 escolas municipais de ensino fundamental de uma cidade do estado de São Paulo. Participaram 379 crianças (212 meninas) com média de idade inicial de 10,6 anos (DP = 0,91). Na segunda coleta de dados 304 tinham mudado para outra escola. Foi utilizado o Sistema de Avaliação de Habilidades Sociais – SSRS versão para auto avaliação do aluno. A estrutura fatorial do SSRS foi ajustada à amostra da pesquisa por meio de análise fatorial confirmatória, que indicou os fatores Responsabilidade e Empatia com índices satisfatórios de consistência interna. Os dados foram submetidos à ANOVA de medidas repetidas, tendo o sexo como fator covariado.

Observou-se decréscimo nos escores de responsabilidade, empatia e total de habilidades sociais do 5º para o 6º ano, com tamanho de efeito médio. Constataram-se também diferenças significativas entre os sexos: as meninas apresentaram maior média que os meninos em todas as comparações, tanto no 5º como no 6º ano. Não houve efeito de interação entre tempo e sexo. Tais resultados sugerem efeitos adversos da transição, percebidos com o decréscimo das habilidades sociais auto avaliadas. Quanto às diferenças entre meninos e meninas, os resultados confirmam tendência encontrada em estudos que usaram o SSRS nas versões para pais e professores, dando vantagem às meninas. No entanto, contrariando a expectativa inicial, eles sugerem que meninos e meninas teriam sido afetados de forma semelhante neste contexto de transição escolar.

As crianças se percebem com menos HS após a transição, independentemente de se avaliarem com um repertório mais ou menos desenvolvido antes desta. Uma possível limitação do estudo é o fato de haver apenas uma coleta de dados após a transição escolar, o que nos impede de observar no decorrer do tempo o efeito da transição sobre as habilidades sociais. Para maior compreensão sugere-se a inclusão de dados do contexto e escolar, particularmente a comparação entre resultados de crianças que permaneceram na mesma escola e crianças que na transição foram transferidas para outra escola.

Esta investigação foi financiada por bolsa da CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior e por auxílio e bolsa do CNPq – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Entidades do Governo Brasileiro voltadas para a formação de recursos humanos. http://www.capes.gov.br/ e http://cnpq.br/