A culpa (é) da família

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Em quase todos os textos que eu li sobre esse tema, eles começam dizendo da culpa relacionada à religião, mas não é sobre isso que eu vim falar aqui hoje.

Eu vim falar da culpa nossa de cada dia. Falo hoje do sentimento que surge quando a gente acha que deveria fazer alguma coisa e não fez. Ou do sentimento que surge em resposta a reação de pessoas próximas por quem temos bons afetos e que dizem pra gente que deveríamos ter feito algo e não fizemos. Essas duas situações podem ser face da mesma moeda, e respostas a expectativas nossas e de quem nos cerca.

Pois a culpa esconde alguns outros sentimentos que se confundem com ela e esclarecer pode ser interessante até pra nos livrarmos do peso desnecessário.

Culpa pode esconder o sentimento triunfo de ter transgredido regras. Como por exemplo, o menino que brinca tanto que quebra alguma coisa na casa e é chamado atenção por isso. E sentimentos se misturam. Estava gostoso brincar, mas não é gostoso quebrar algo e deixar a mãe brava. O menino sente culpa.

Sentimos culpa por sentimentos negativos que temos em relação a algumas situações ou comportamentos de algumas pessoas, engolimos seco pra não magoar e dizer que nos incomodamos e sentimos culpa por não ter conseguido evitar que isso se repetisse.

A vida segue e crescemos, o menino cresce e é muito comum engolir a culpa com comida, bebida, compras, experiências compensatórias. Mas nada de pensar na culpa, no máximo pedimos DESCULPA, pros outros e pra gente. Mas não nos responsabilizamos em sentir a culpa ou evitar algo que vai nos trazer certamente o sentimento de culpa.

Papo pesado. É, mas aí a gente ensina os filhos a pedir desculpa e a sentir culpa, e nos sentimos culpados em não fazer mais que isso, ao invés de nos responsabilizarmos e ensinar nossos filhos a se responsabilizarem e sentirem menos culpa em não corresponder a suas expectativas, dos pais e deles menos… de repente, isso pode ter como consequência lidar melhor com frustrações… de repente.

Texto retirado do podcast de minha autoria, Para e Pensa

Ser mãe não é fácil, mas também não precisa ser tão difícil

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Por Cynthia Cassoni

São muitas as dificuldades encontradas hoje no que diz respeito à criação de filhos. Quando éramos crianças, os pais decidiam tudo pela criança, sem ao menos lhes participar suas decisões.  

Percebeu-se que esta não era a melhor forma de educar os filhos, que as crianças precisam fazer parte das decisões e conversas sobre sua vida. Mas fazer parte, ser ouvida, participar com suas opiniões virou mandar em toda a família.

Hoje encontramos famílias inteiras obedecendo a uma criança; mudam a hora do almoço, o programa escolhido, os convidados em função dos desejos de uma criança.

Ora, logo de cara percebemos que isto não é adequado, mas encontrar o equilíbrio não é fácil. Com uma sociedade inteira agindo desta forma, quando retomamos as rédeas da situação somos criticados por muitos.

Mas quem são os verdadeiros prejudicados com esta situação? As crianças! E, portanto, todas as iniciativas dos pais para estabelecer limites, colocar regras, suprimir comportamentos inadequados e incentivar a ocorrência de comportamentos adequados, devem ser parabenizadas.

Desta forma as crianças compreenderão o que significa viver em sociedade, aprenderão a lidar com frustrações (super normais na vida de todos) e ter a realização de seus desejos adiados, o que lhes fornecerá um leque de habilidades que serão utilizadas em suas experiências de vida.

Então não se descabele mamãe e papai, saibam que um choro aqui e ali é melhor do que um jovem ou adulto sem tolerância a frustrações e que acredita que o mundo existe para lhe servir.

Mais sobre o assunto:

Cassoni, C., & Caldana, R. H. L. (2017). Estilos e Práticas Educativas Parentais: revisão sistemática e crítica da literatura. Novas Edições Acadêmicas.

Hoffman, M. L. (1975). Moral internalization,parental power, and the nature of parent-child interaction. Developmental Psychology, 11(2), 228-239.

 

Filho não vem com manual, e agora?

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Por Cynthia Cassoni

Quantas e quantas vezes escutei isso no consultório! Acabo sempre me preocupando, pois esta pergunta vem acompanhada de risos, mas no fundo não deixa de mostrar o quanto os pais e mães estão angustiados, ou como já me disse uma mãe “desesperada” com o desenvolvimento de seus filhos.

Ele não tem poucos amigos? Ele deveria correr assim? Devo ou não deixar usar o celular? Estas e tantas outras perguntas atormentam os pais. Mas não é difícil compreender de onde vem este questionamento. Quantos pais e mães se vêm em situações inusitadas sem saber como agir, ou melhor, sem saber qual a melhor ou mais adequada forma de lidar com determinada questão. 

Infelizmente, para aqueles pais que gostam de tudo mastigado, não vou responder a estas questões, pois não cabe a mim lhes dizer como devem ou não agir com seus filhos. Mas podemos ficar mais tranquilos, pois não são apenas os pais que se interessam por estas questões. Temos toda uma gama de trabalhos voltados para, senão a melhor forma de educar os filhos, pelo menos as que apresentam maiores benefícios para as crianças. 

Investigando o tema o que percebemos é que as crianças têm mais possibilidades de crescerem de forma saudável quando os pais além de buscar de alguma formacontrolar o comportamento dos filhos, impondo-lhes limites e estabelecendo regrastambém possuem atitudes compreensivas que visam, através do apoio emocional e da comunicação bi-direcional favorecer o desenvolvimento da autonomia e da autoafirmação dos filhos.

Mas como funciona isso na prática? Podemos dividir os pais em quatro grupos, a) aqueles pais que deixam seus filhos fazerem o que querem ser impor limites ou regras e também são poucos compreensivos demostrando pouco apoio (negligentes), b) aqueles que também deixam seus filhos fazerem o que querem, mas diferente do negligente estes pais dão bastante suporte e apoio para os filhos (indulgentes), c) aqueles que exigem bastante dos filhos, colocando limites e regras para as crianças, mas que são pouco compreensivos demostrando pouco apoio (autoritários) e por último d) aqueles pais que exigem bastante dos filhos, colocando limites e regras para as criançase dão bastante suporte e apoio para os filhos (autoritaivos).

Os benefícios para as crianças do estilo parental autoritativo são percebidos de forma mais acentuada que qualquer outro estilo parental independentemente da composição familiar, cultura ou status socioeconômico. 

Não é um manual, mas assim ficou mais fácil, não?

Mais sobre o assunto:

Baumrind, D. (1966). Effects of authoritative parental control on child behavior. Child Development, 37(4), 887-907.

Cassoni, C., & Caldana, R. H. L. (2017). Estilos e Práticas Educativas Parentais: revisão sistemática e crítica da literatura. Novas Edições Acadêmicas.

Maccoby, E., & Martin, J. (1983). Handbook of child psychology: Socialization, personality,and social development. Wiley Ed.: New York.

Quem cuida das crianças hoje? A terceirização dos filhos

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Por Cynthia Cassoni

A atenção ao cuidado com a criança é uma constante, mas as formas de lidar e educar e os responsáveis por estes aspectos se modificaram com o decorrer do tempo. Sabemos que no início do século XX as crenças e atitudes sobre a criação dos filhos estavam vinculadas basicamente à religião e a forma como as mães foram educadas. Os pais mantinham o controle e a obediência das crianças por meio da punição severa, com pouco agrado e elogios. 

Depois nas décadas de 50 e 60 os pais, em sua maioria, continuam considerando importante controlar o comportamento de seus filhos, porém de forma menos punitiva, iniciando-se as preocupações quanto a uma infância feliz e despreocupada. Com isso em mente, próximo do final do século XX, a orientação passou a ser, permitir, não tolher, não frustrar e não desestimular a criança. Os pais são criticados se cultivam alguma autoridade sobre os filhos, os quais, consequentemente mostram-se cada vez mais impulsivos e explosivos, gerando frustrações nos pais levando-os a adotar estratégias para conter os filhos como punição física e verbal.

Percebe-se pela fala anterior, que fomos de um extremo ao outro. Este fato junto com o ingresso das mulheres no mercado de trabalho, ficando menos tempo com as crianças, contribuiu para a responsabilidade com relação às crianças se diluir e mesclar de tal forma que hoje não conseguimos discernir, onde ela se encontra.

Temos então vários parentes responsáveis por diferentes dias e horários da agenda da criança. Além disso, cada vez são incluídas mais atividades na vida da criança para que assim o tempo que a criança ficaria sozinha diminua. Agenda cheia, vários responsáveis, ninguém realmente assumindo a criança é a receita perfeita para falhas de comunicação e negligência quanto ao bem estar da criança. Portanto fiquem atentos!

Mais sobre o assunto:

Biasoli-Alves, Z. M. M. (2002). A Questão da Disciplina na Prática de Educação da Criança, no Brasil,  ao Longo do Século XX. Veritati, 2(2), 243-259.

Caldana, R. H. L. (1998). Ser Criança no Início do Século: Alguns retratos e suas Lições. 1998. Tese (Doutorado em Psicologia), – UFSCar.

Cassoni, C., & Caldana, R. H. L. (2017). Estilos e Práticas Educativas Parentais: revisão sistemática e crítica da literatura. Novas Edições Acadêmicas.

Romanelli, G. (2003). Paternidade em famílias de camadas médias. Estudos e Pesquisas em Psicologia, 2, 79-85.

 

Comunicação emocional e o mundo multitela

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Você já se pegou recebendo uma mensagem que te emociona ou fala uma grande verdade, óbvia até, pelo aplicativo de mensagens?🤓 Alguma pessoa que estava do seu lado, já te mandou um emoji só pra você prestar atenção que ela estava ao seu lado e você nem tinha percebido?🥺 Já mandou uma mensagem dessa pra alguém?😕
Respiramos por aparelhos, vivemos entre telas, já percebeu isso?😳 Há quem observe falta de educação teclar a mesa 🤭, outros só se reconhecem ou reconhecem o outro por meio dos likes em redes sociais👹. Outros sempre usam referências de séries, novelas, filmes para se expressar… há quem só tenha dois neurônios: uma para lembrar de anotar no celular e outro para ler o que escreveu.✍️ Sem memória, sem crítica, o celular (tablet, notebook, icoisas) se torna senhor das nossas tarefas, saúde, e nossos relacionamentos interpessoais. Enfim, se for pensar muito da até crise de riso😹 e choro😿 ao mesmo tempo! Existem até novos diagnósticos ligados ao uso excessivo das telas.
Às vezes me pego olhando absorta em uma tela🤖. Fiquei pensando nesse meu hábito. O que eu diria pra mim se me filmassem ou tirassem foto desse momento? Que cara boba! Parece hipnotizada!
Leio muitos artigos sobre a criação de crianças e as mídias digitais como problema em termos de uso em excesso e como ferramenta de aprendizagem do mundo. Quero hoje falar sobre a nossa capacidade de comunicação emocional em um mundo de “multitela”.
Acho que antes dessa revolução das telas, as musicas eram modos com os quais a minha geração se comunicava emocionalmente: das serestas e serenatas do tempo dos meus avós e bisavos aos clipes de Michael Jackson e linkin park, Lady Gaga…🎧 enfim, parecia que as músicas falavam por mim e para mim. Elas ainda falam, mas observo que os memes e emojis são muito mais usados pelos frequentadores de redes sociais e recebo menos poesias que imagens e montagens como forma de exposição de experiências emocionais.
Parece que a música e o ouvir deram lugar aos desenhos, carinhas, fotos, gifs, vídeos: os filmes e series se tornaram referência, cenas viram memes e reproduzem aquilo que sentimos e.x.a.t.a.m.e.n.t.e.
Já prestou atenção no modo como você pensa seus pensamentos? Ícones e memes aparecem na sua tela mental como formas de expressão de pensamentos? Como você expressa que está triste, por meio de smileyfaces? E frustrado, esquecido, aliviado? Vc se reconhece nos emojis? Já postou um emoji e se olhou no espelho? Já mandou emojis e foi compreendido ou mal compreendido?
Precisamos lembrar que eles foram criados porque as palavras não tinham a entonação daquilo que gostaríamos de dizer no mundão digital. Hoje é o contrario que acontece. Nos faltam expressões verbais, emocionais, faciais, silêncios e barulhos para nos expressar com clareza, ou melhor não nos falta nada disso. Nos falta um dicionário do outro que nos permita compreender e ser compreendido. E por mais que tentemos, é possível que tenhamos dificuldades em nos expressar quando sentimos o peso das emoções mais elaboradas. Choramos. Rimos. Gritamos, mas esses são recursos usados por bebês de meses para se expressarem. Com o passar do tempo, em que melhoramos?
Responda com sinceridade: Somos capazes de não sermos binários (ou seja, de pensar que nem tudo é sim ou não, azul ou rosa)? Somos capazes de mudar de ideia (de escutar uma nova ideia)? Somos capazes dar sentido ao que sentimos ao invés de reproduzir compreensões? Somos capazes de reconhecer emoções em nos mesmos e nas pessoas com quem convivemos (não vale interpretar segundo nossa própria lógica, mas na lógica do outro). Somos capazes de nos expressar e guardar memórias de momentos emocionantes sem usar a câmera do celular? Sem olhar se daria uma boa foto? Somos capazes de nos reconhecer nas nossas expressões faciais? Se tirarem uma foto sua neste, que expressão facial você teria? O que ela expressaria em termos de pensamentos e emoções?
De que maneira você reconhece a nuance de suas emoções? Onde você coloca as emoções não nomeadas? De que jeito as expressa? Porque também temos emoções que não sabemos que sentimos ou nomeamos. Onde as colocamos? Que emoji escolheríamos para expressar elas?